23. Absurdo
Tornamo-nos esfinges, ainda que falsas, até o ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, o que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos em acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas – agirmos e justificarmos nossas ações com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida a agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música nem para ver quem esta lá; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar uns dias no campo só porque o campo nos aborrece.
Por que isso era o que eu gostaria de ter escrito se tivesse um mínimo de talento.
Trecho do Livro do Desassossego
Bernardo Soares
Gostei muito disso, até me interessei em ler o livro. Parabéns pelo blog!